Sempre que o Brasil perde alguma Copa do Mundo, a imprensa e a opinião pública escolhem um jogador para imputar a responsabilidade pelo fiasco.
Na Copa de 1990 realizada na Itália, o culpado pela derrota brasileira perante a Argentina, ainda nas oitavas de final, foi o jovem volante Dunga; na Copa de 1998, o responsável pela derrota do Brasil contra a França na final foi o “fenômeno” Ronaldo, acusado de “amarelar” na noite que antecedeu aquele trágico jogo. Na Copa da Alemanha em 2006, sobrou para Roberto Carlos, a quem se atribuiu o ato culposo de arrumar a meia, enquanto a Thierry Henry empurrava a bola para o fundo do gol.
Na Copa da África do Sul, é fácil eleger um culpado pela derrota canarinha perante a Holanda: Felipe Melo, volante de 27 anos de idade, nascido em Volta Rendonda, Rio de Janeiro.
Durante toda a competição, o único momento de bom futebol mostrado por Felipe Melo foi um bom passe que deixou Robinho na cara do gol, permitindo ao craque abrir o placar na partida contra a Holanda. Contudo, as inúmeras trapalhadas do volante vão apagar da memória aquele lampejo de inspiração. Na história, ficarão registrados o gol-contra e a pisada que lhe rendeu a expulsão em momento crítico da partida, fato que arrasou o esquema tático do Brasil.
Felipe Melo não é forte no futebol-arte. Foi escolhido por ser considerado um jogador de entradas duras. Dunga, nesse ponto, é culpado por escalá-lo. Antes da Copa, Melo havia sido expulso cinco vezes nas duas últimas temporadas, duas atuando pela Fiorentina, duas jogando pela Juventus e uma pela seleção do Brasil, nas eliminatórias para a Copa contra o Chile.
Curiosamente, muito antes da partida do Brasil contra a Holanda, o colunista Diogo Mainardi da revista Veja, mesmo não conhecendo muita coisa sobre futebol, havia feito uma crítica contundente contra Felipe Melo. Foi uma advertência sobre o que estava por vir. De forma profética, o irônico jornalista, no artigo “A comédia da Copa”, deixou para eternidade as seguintes palavras:
“Mas o jogador do Brasil com o qual realmente me identifico é Felipe Melo. Sempre que, durante o programa de rádio, Wanderley Nogueira me passa a bola, eu me embanano todo e, como Felipe Melo, acabo recuando para o zagueiro. Na Copa do Mundo, minha torcida será inteirinha para ele. Ele me representa. Vai, Felipe Melo! Mostre ao mundo do que é capaz uma pessoa sem talento, sem juízo e sem discernimento.”
É isso mesmo, Mainardi. De fato, Felipe Melo mostrou ao mundo do que é capaz. Provavelmente, nunca mais vestirá a camisa verde e amarela.